O último manuscrito

Posted by Vicente de Oliveira Luiz | Posted in | Posted on 13:44

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In memoriam de Ezequiel Rodriguez Baudo e
Vladimir Magalhães

                                                                        
Consta nos anais das civilizações perdidas que, no jubileu de coroação de Nublai, rei de Daren, o próprio soberano, sob a influência nefasta dos astros, flertou com a tirania e deu abrigo ao obscurantismo, permitindo que o esclarecimento fosse preterido da vida do seu povo para sempre.

Porém, comentava-se, aqui e ali, que Nublai, à mercê da vaidade e encorajado pelo vinho, causou a ruína de seu reino, deixando seus súditos à margem da história e seus ancestrais fora do alcance da lembrança dos homens.

De longe em longe, os rumores do ocaso de Daren ainda ecoavam, quase inaudíveis, suficientes apenas para ludibriar o esquecimento. Seria preciso mais do que um lampejo de imaginação, com a tessitura dos sonhos, para resgatar a memória daqueles dias, durante os festejos do jubileu, quando a multidão ocupou ruas e praças para ver as apresentações de palhaços, malabaristas, atores e músicos. Até mesmo o jovem Tael, neto de Alaor, conselheiro do rei, se juntou ao povo nas correrias por becos e vielas para não perder nenhuma atração e ovacionar as trupes de mambembes, embora fosse mais afeito ao recolhimento e aos estudos.

Mais do que meio século de reinado, celebrava-se a paz e a abundância dela decorrente. A comemoração culminou na leitura da história do reino para a corte e convidados estrangeiros em um banquete marcado por requinte e opulência.

Sem o consentimento do avô, Tael teve que se misturar aos convidados para acompanhar o mestre-historiador iniciar solenemente a narrativa no momento em que o rei Muntari fora ferido em uma emboscada e salvo por um velho nômade do deserto, quando consolidava as fronteiras de Daren.

Extasiado com a grandiosidade do evento, o mestre-historiador enumerou, em uma ladainha sem fim, desde as pequenas realizações até as grandes façanhas dos antigos reis de Daren, mas não mencionou nenhum feito, extraordinário ou não, de Nublai.

Parecia que ninguém tinha se dado conta desse lapso na narrativa até que um dos convidados mencionou o descuido e causou mal-estar entre os comensais. Os sons de mil talheres emudeceram em todo o salão, porque o silêncio se faz presente, quando um comentário inadequado rompe a barreira dos dentes de um incauto.

Entorpecido pelo vinho, Nublai saiu do transe em que estava por causa do dito indigesto para reviver recalques que o acometiam desde sempre. Órfão ainda menino, ele se sentia à sombra de seus ancestrais, sobretudo de Muntari, cuja presença pairava sobre o reino com a força de seu carisma.

Assim que os convivas se retiraram, os conselheiros trocaram acusações e perdigotos entre si até que um deles sugeriu o veto do rei ao pergaminho da história do reino. Alaor, o conselheiro mais calejado, alertou que não era auspicioso que os súditos pensassem que o rei ficara melindrado por sequer ter sido mencionado na leitura do mestre-historiador e, por isso, proibira o manuscrito.

Novamente, os conselheiros se agitaram, e o salão do conselho ficou em polvorosa. Então, num repente pueril, Nublai decretou a proibição de todos os pergaminhos e os sentenciou às chamas, alegando que assim ninguém pensaria que ele proibia um em particular.

O desatino do rei foi sancionado com o apoio de todos os conselheiros, com uma ressalva de Alaor para que fosse indicado um censor que coibisse os excessos e assegurasse que somente os textos que atentassem contra a dignidade do rei e a integridade do reino fossem destruídos.

Os súditos foram surpreendidos pelo decreto de Nublai. Exceto Tael, ninguém contestou. Ao contrário, sob a influência da atitude inconsequente de Nublai, alguns súditos se valeram de denúncias de desrespeito ao decreto real para se livrar de dívidas e desafetos.

Sem verificar se as acusações procediam, os soldados do rei vasculhavam as casas e prendiam os moradores caso encontrassem escritos e torturavam caso não. Em festas marcadas por brigas e bebedeiras, não só o pergaminho da história do reino virou cinza, como também obras de astronomia, tratados de medicina e até manuais de agricultura.

Quando os insatisfeitos exteriorizaram indignação, as prisões ficaram cheias; e os carrascos, ocupados. Tael só não fora preso por ser neto do conselheiro Alaor, pois mais de uma vez fora flagrado tentando enviar pergaminhos para além das fronteiras de Daren ou censurando aqueles que tratavam os caprichos do rei como se fossem questões de Estado.

Quando Alaor soube das peripécias do neto, ele o advertiu, com a suavidade de avô, que a vontade do rei tinha que ser cumprida e, com a austeridade de conselheiro, o exilou em um dos reinos vizinhos a pretexto de que se familiarizasse com os costumes. Anos depois, quando agonizava no leito de morte, Alaor mandou buscá-lo; mas era tarde demais, com tanto que tinham a dizer um ao outro, a reconciliação não foi possível.

A crise interna de Daren não passou despercebida dos reinos vizinhos, que aproveitaram o momento de instabilidade para declarar guerra, ignorando décadas de paz. Além disso, tribos nômades começaram a fazer incursões e a saquear aldeias e vilas desguarnecidas.

Com os anos, as guerras abalaram a prosperidade do reino, os impostos subiram, e o comércio, que atraía mercadores de toda parte com especiarias tão variadas quanto as línguas que as nomeavam, minguou, agravando o descontentamento do povo. Ninguém mais procurava Daren, e até os que lá viviam sonhavam com outro lugar.

Mesmo nestes tempos difíceis, as buscas aos escritos não cessaram. Embora raras, pois os sábios e copistas abandonaram Daren com todo o saber reunido na bagagem, as fogueiras inflamavam o povo como nunca antes.

Quando soldados recém-chegados dos campos de batalha entregaram um pergaminho que encontraram em uma gruta no deserto aos conselheiros, eles presumiram se tratar do último manuscrito de Daren e não o queimaram para que o próprio rei tivesse o prazer de fazê-lo diante da multidão.

Decrépito, o rei mal andava sem ajuda e quase não enxergava. Quando os conselheiros apresentaram a ele o manuscrito, Nublai, o monarca que proibiu os escritos em Daren, o pegou com carinho e ficou acariciando com as pontas dos dedos palavras que jamais leria.

Com a morte na cabeceira, Nublai não queria ser lembrado como o rei que baniu as letras e privou seus súditos do conhecimento, mas também não queria demonstrar insegurança, revogando o próprio decreto. Porém, sem sua aprovação expressa, nenhum censor ousaria a poupar qualquer manuscrito, ainda que se tratasse de um manual de jardinagem.

Em todo o reino, somente o neto de Alaor seria capaz de fazer o que o rei queria sem que ele parecesse tíbio aos olhos de seus súditos. Embora vivesse isolado, Tael atendeu à solicitação de Nublai e compareceu à corte para ouvir do próprio rei que caberia a ele decidir se o povo se reuniria para ouvir a leitura ou o crepitar das chamas do último manuscrito de Daren.

O disse me disse tomou conta da corte, diziam que Nublai testava a lealdade de Tael e temiam o perigo oculto no convite para que ele fosse censor do pergaminho encontrado no deserto, pois todos sabiam que suas convicções estavam mais fortes do que na juventude, quando contrabandeava manuscritos e censurava publicamente os conselheiros, desafiando o decreto real.

À noite, recolhido em seus aposentos, Tael repetiu os gestos de Nublai e tateou o pergaminho. Logo seus olhos foram capturados pelas palavras iniciais do manuscrito, e ele prosseguiu a leitura que o rei havia iniciado com os dedos:

“Há homens que vivem os momentos de bem-aventurança sem considerar os reveses da fortuna, como eu, que outrora frequentei bailes e banquetes nos salões da nobreza e hoje erro pelo deserto em companhia dos animais e me satisfaço com raízes e sementes.

Fiz parte do conselho dos ministros do rei, mais por força da tradição dos meus ancestrais que eram homens letrados e de grande erudição do que por meus próprios méritos, pois era jovem demais para orientar a quem quer que fosse. Quando meu conselho se fez necessário, fraquejei.

Porém, não foi pela inexperiência que não honrei meu lugar à mesa do conselho, nem por receio em desagradar a alguns nobres que me procuraram para que manifestasse desapreço pela presença de estrangeiros no reino, alertando para o perigo que eles representavam aos nossos costumes e valores e, principalmente, para a ingratidão deles com a terra que os acolheu. Foi, sobretudo, uma indiferença atávica por tudo que não fosse sofisticado e aristocrático que me levou a permanecer alheio à injustiça cometida diante dos meus olhos, ainda que não compartilhasse a mesma desconfiança de seus detratores e soubesse que suas preocupações passavam ao largo da sala do trono.

Não levantei a voz em ataque aos estrangeiros, como a maioria dos conselheiros que os qualificou como escória e os comparou a bárbaros, afirmando que seria melhor para todos que eles vivessem isolados já que não eram dignos de confiança, mas tampouco os defendi.

Só compreendi que era algo mais do que arrebatamento patriótico, dias depois, na principal corrida de cavalos do ano, quando alguns apostadores, no caso os perdedores, identificaram no cocho do cavalo vitorioso resquícios de uma mistura proibida de água, mel e aveia.  Como essa prática era comum para melhorar a forma física e o desempenho dos animais na terra natal do proprietário do vencedor do páreo, a conclusão de que se tratava de má-fé foi imediata. Embora a reputação do acusado jamais tivesse sido questionada, o puro-sangue vencedor fizesse parte de um plantel de uma linhagem campeã, e os acusadores estivessem à beira da falência devido a dívidas de jogo, a denúncia chegou ao tribunal do rei com a força de uma sentença, pois eram nobres acusando um estrangeiro.

Meu rei cedeu ao clamor dos queixosos e condenou o acusado ao empalamento, depois de confiscar e distribuir, como era costume, todos os seus bens aos supostos prejudicados por sua fraude. O réu não alegou inocência nem clamou misericórdia, em silêncio, agonizou até a morte mirando o firmamento.

Aos poucos e sem alarde, os estrangeiros foram em busca de terras menos hostis. O que a princípio parecia não ter consequências se revelou desastroso, sem eles nossas contradições se evidenciaram, e as diferenças se manifestaram com uma virulência nunca vista, tornando graves conflitos banais.

Logo, o meu rei foi deposto e exilado, alvo da intolerância que ele próprio nutriu. Consumido pela omissão, eu mesmo me sentenciei a vagar como um andarilho à procura de um lugar onde o clamor por justiça não seria dirigido aos céus, nem o desdém o grande ensinamento dos eruditos. Mas não encontrei, aonde quer que fosse, apenas constatei que os homens se degradam mutuamente em todos os lugares.

Muitos anos e lugares depois, encontrei refúgio para minhas quimeras na solidão do deserto até que um grande rei em guerra pela consolidação das fronteiras do seu reino foi vítima de envenenamento, no que parecia ser uma conspiração da nobreza, e mandou que seus soldados encontrassem alguém com conhecimento sobre ervas para cuidar dele, pois não tinha mais confiança em seus médicos. Os soldados trouxeram o primeiro homem que encontraram em condições para atender à ordem do rei, eu, um velho nômade do deserto.

Fui sábio o bastante para não contrariar os soldados e me deixei levar sob escolta até o acampamento. O grande rei parecia sentir dores intensas, pois seus gemidos eram ouvidos a distância. Mas logo percebi que o envenenamento não passava de excessos à mesa e que a teoria da conspiração fora orquestrada na cozinha. Exausto, depois de meses de batalhas, o rei estava suscetível a desvarios e prontamente acreditou em um complô para eliminá-lo.

Porém, ao saber qual era o mal de que padecia, ele infligiu a si mesmo ferimentos com uma espada, agravando seu estado de saúde, mas garantindo maior dramaticidade ao boato que ele próprio criaria e disseminaria de que fora vítima de uma emboscada; afinal, um empanturramento não estava à altura da sua dignidade.

Embora debilitado e febril, o rei queria saber como viviam os homens fora dos seus domínios e pediu que eu contasse a ele. Ciente de que jamais saberia se as palavras que ouvia foram ditas por mim ou resultado de seus delírios e que a perspectiva de ser lembrado, muito além do seu tempo, o fascinava, enfatizei que a história distinguia reis em cujos domínios o sol nunca se punha e aqueles cujos exércitos secavam os rios por onde passavam, mas eles eram tantos que chamava a atenção os poucos que elevavam a condição humana, rompendo os grilhões do povo.

Entusiasmado dissertei sobre reinos fundados com bases na justiça e no esclarecimento, onde os homens eram iguais perante a lei, escolhiam seus governantes e tinham direito a professar suas crenças e a expressar suas opiniões. Quem nos visse não saberia quem delirava.

Não sei o que o grande rei assimilou do que eu disse, mas assim que se recuperou, ele ofereceu um banquete aos nobres que supostamente o envenenaram. Vacilantes, eles pareciam mesmo traidores e se apresentaram esperando o pior, que veio, mas não como presumiam. O grande rei ordenou que cada um deles assinasse uma declaração em um pergaminho negando a participação no conluio para assassiná-lo. Cabisbaixos, os nobres se retiraram conscientes de que a pena capital teria sido melhor, pois ao assinar negando suas participações eles atestavam que houve uma conspiração contra o rei e que eles sabiam da existência dela. Em seguida, o rei ordenou que soldados levassem os pergaminhos assinados para lugares distantes e os escondessem em locais determinados por ele. Quando voltaram, todos foram executados, assegurando que somente o rei soubesse onde estavam os pergaminhos dos traidores.

O grande rei me presenteou com ouro e prata para abrandar as dificuldades do meu destino incerto e assegurar uma velhice sem privações, mas ainda assim voltei à serenidade dos ermos, onde não há quórum para a perfídia.

Ainda hoje sinto intensa inquietação por não ter alertado o grande rei a respeito das consequências do seu estratagema para controlar a nobreza, pois mesmo vivendo isolado, ouço rumores dos seus feitos e da prosperidade do seu reino e temo que, desonrados e ressentidos, cedo ou tarde, aqueles nobres cobrem vingança, já que ninguém aceita ser humilhado por escrito.”

Depois de ler o manuscrito repetidas vezes, Tael ficou vagando por seus aposentos tentando se convencer de que o pergaminho, que agora repousava em uma almofada à espera de uma sentença, não era de autoria do velho eremita que cuidara do rei Muntari tempos atrás.

Porém, além das semelhanças entre os acontecimentos narrados no manuscrito e a história de Daren, não havia dúvida de que o autor conhecia muito bem eventos obscuros do passado do reino, como os pergaminhos dos traidores, que a maioria dos súditos nem suspeitava da existência.

Ainda que fossem palavras de um desconhecido, elas causariam a mesma impressão em Tael, obrigando-o a aceitar que a decadência de Daren era inexorável.

Tael não teve dificuldade para supor que, desde que assinaram os pergaminhos, coagidos por Muntari, os nobres procuraram destruí-los. Às escondidas, as buscas foram em vão e só não foram deixadas de lado pelo temor que eles tinham de passar para a posteridade como traidores.

Diante das dificuldades de encontrar os pergaminhos, os nobres viram na morte precoce do rei de Daren uma oportunidade de mudarem de estratégia, pois tanto a viúva quanto o jovem herdeiro ignoravam o paradeiro dos manuscritos. A princípio, eles começaram atribuindo os acontecimentos narrados à maledicência dos desocupados e, depois, insidiosos fizeram com que todos cressem que os pergaminhos dos traidores não existiam.

No entanto, a ameaça persistia, pois os pergaminhos poderiam ser encontrados a qualquer momento. Então, graças ao toque de ironia de Alaor, que orquestrou minuciosamente a encenação na leitura da história de Daren na festa do jubileu da coroação para que o próprio Nublai, surdo a conselhos quando ébrio, autorizasse a proibição dos manuscritos, as buscas aos pergaminhos dos traidores ganharam novo fôlego até que todos foram destruídos. A mácula da traição foi apagada e, com ela, o conhecimento do reino.

Depois de anos de luta contra o decreto de Nublai, agora que o fim da proibição só dependia dele, Tael era assolado por dúvidas. Ele sabia que as revelações do nômade do deserto teriam consequências ainda mais devastadoras do que a proibição. Nublai não teria dúvida de que fora induzido a proibir os pergaminhos e não perdoaria os envolvidos em fazê-lo de marionete naquela noite fatídica, e os nobres, por sua vez, cientes da artimanha de Muntari para controlar seus ancestrais, jamais aceitariam ser imolados por um rei que já tinham feito de tolo. Caso Tael poupasse o último pergaminho das chamas, uma guerra intestina destruiria mesmo quem a vencesse.

No dia seguinte, não fossem pelas roupas e pelo séquito, ninguém o reconheceria, seus passos ontem firmes, hoje titubeavam, seu olhar, outrora decidido, agora vacilava sem se fixar em nada. Sombrio, Tael se arrastou até o palácio, experimentando profunda desolação.

Diante de toda a corte, Tael condenou o último manuscrito de Daren à fogueira, consciente de que o esquecimento é o único legado de um povo sem história.

                                                                                Por Vicente de Oliveira Luiz

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