O último manuscrito

Posted by Vicente de Oliveira Luiz | Posted in | Posted on 13:44

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In memoriam de Ezequiel Rodriguez Baudo e
Vladimir Magalhães

                                                                        
Consta nos anais das civilizações perdidas que, no jubileu de coroação de Nublai, rei de Daren, o próprio soberano, sob a influência nefasta dos astros, flertou com a tirania e deu abrigo ao obscurantismo, permitindo que o esclarecimento fosse preterido da vida do seu povo para sempre.

Porém, comentava-se, aqui e ali, que Nublai, à mercê da vaidade e encorajado pelo vinho, causou a ruína de seu reino, deixando seus súditos à margem da história e seus ancestrais fora do alcance da lembrança dos homens.

De longe em longe, os rumores do ocaso de Daren ainda ecoavam, quase inaudíveis, suficientes apenas para ludibriar o esquecimento. Seria preciso mais do que um lampejo de imaginação, com a tessitura dos sonhos, para resgatar a memória daqueles dias, durante os festejos do jubileu, quando a multidão ocupou ruas e praças para ver as apresentações de palhaços, malabaristas, atores e músicos. Até mesmo o jovem Tael, neto de Alaor, conselheiro do rei, se juntou ao povo nas correrias por becos e vielas para não perder nenhuma atração e ovacionar as trupes de mambembes, embora fosse mais afeito ao recolhimento e aos estudos.

Mais do que meio século de reinado, celebrava-se a paz e a abundância dela decorrente. A comemoração culminou na leitura da história do reino para a corte e convidados estrangeiros em um banquete marcado por requinte e opulência.

Sem o consentimento do avô, Tael teve que se misturar aos convidados para acompanhar o mestre-historiador iniciar solenemente a narrativa no momento em que o rei Muntari fora ferido em uma emboscada e salvo por um velho nômade do deserto, quando consolidava as fronteiras de Daren.

Extasiado com a grandiosidade do evento, o mestre-historiador enumerou, em uma ladainha sem fim, desde as pequenas realizações até as grandes façanhas dos antigos reis de Daren, mas não mencionou nenhum feito, extraordinário ou não, de Nublai.

Parecia que ninguém tinha se dado conta desse lapso na narrativa até que um dos convidados mencionou o descuido e causou mal-estar entre os comensais. Os sons de mil talheres emudeceram em todo o salão, porque o silêncio se faz presente, quando um comentário inadequado rompe a barreira dos dentes de um incauto.

Entorpecido pelo vinho, Nublai saiu do transe em que estava por causa do dito indigesto para reviver recalques que o acometiam desde sempre. Órfão ainda menino, ele se sentia à sombra de seus ancestrais, sobretudo de Muntari, cuja presença pairava sobre o reino com a força de seu carisma.

Assim que os convivas se retiraram, os conselheiros trocaram acusações e perdigotos entre si até que um deles sugeriu o veto do rei ao pergaminho da história do reino. Alaor, o conselheiro mais calejado, alertou que não era auspicioso que os súditos pensassem que o rei ficara melindrado por sequer ter sido mencionado na leitura do mestre-historiador e, por isso, proibira o manuscrito.

Novamente, os conselheiros se agitaram, e o salão do conselho ficou em polvorosa. Então, num repente pueril, Nublai decretou a proibição de todos os pergaminhos e os sentenciou às chamas, alegando que assim ninguém pensaria que ele proibia um em particular.

O desatino do rei foi sancionado com o apoio de todos os conselheiros, com uma ressalva de Alaor para que fosse indicado um censor que coibisse os excessos e assegurasse que somente os textos que atentassem contra a dignidade do rei e a integridade do reino fossem destruídos.

Os súditos foram surpreendidos pelo decreto de Nublai. Exceto Tael, ninguém contestou. Ao contrário, sob a influência da atitude inconsequente de Nublai, alguns súditos se valeram de denúncias de desrespeito ao decreto real para se livrar de dívidas e desafetos.

Sem verificar se as acusações procediam, os soldados do rei vasculhavam as casas e prendiam os moradores caso encontrassem escritos e torturavam caso não. Em festas marcadas por brigas e bebedeiras, não só o pergaminho da história do reino virou cinza, como também obras de astronomia, tratados de medicina e até manuais de agricultura.

Quando os insatisfeitos exteriorizaram indignação, as prisões ficaram cheias; e os carrascos, ocupados. Tael só não fora preso por ser neto do conselheiro Alaor, pois mais de uma vez fora flagrado tentando enviar pergaminhos para além das fronteiras de Daren ou censurando aqueles que tratavam os caprichos do rei como se fossem questões de Estado.

Quando Alaor soube das peripécias do neto, ele o advertiu, com a suavidade de avô, que a vontade do rei tinha que ser cumprida e, com a austeridade de conselheiro, o exilou em um dos reinos vizinhos a pretexto de que se familiarizasse com os costumes. Anos depois, quando agonizava no leito de morte, Alaor mandou buscá-lo; mas era tarde demais, com tanto que tinham a dizer um ao outro, a reconciliação não foi possível.

A crise interna de Daren não passou despercebida dos reinos vizinhos, que aproveitaram o momento de instabilidade para declarar guerra, ignorando décadas de paz. Além disso, tribos nômades começaram a fazer incursões e a saquear aldeias e vilas desguarnecidas.

Com os anos, as guerras abalaram a prosperidade do reino, os impostos subiram, e o comércio, que atraía mercadores de toda parte com especiarias tão variadas quanto as línguas que as nomeavam, minguou, agravando o descontentamento do povo. Ninguém mais procurava Daren, e até os que lá viviam sonhavam com outro lugar.

Mesmo nestes tempos difíceis, as buscas aos escritos não cessaram. Embora raras, pois os sábios e copistas abandonaram Daren com todo o saber reunido na bagagem, as fogueiras inflamavam o povo como nunca antes.

Quando soldados recém-chegados dos campos de batalha entregaram um pergaminho que encontraram em uma gruta no deserto aos conselheiros, eles presumiram se tratar do último manuscrito de Daren e não o queimaram para que o próprio rei tivesse o prazer de fazê-lo diante da multidão.

Decrépito, o rei mal andava sem ajuda e quase não enxergava. Quando os conselheiros apresentaram a ele o manuscrito, Nublai, o monarca que proibiu os escritos em Daren, o pegou com carinho e ficou acariciando com as pontas dos dedos palavras que jamais leria.

Com a morte na cabeceira, Nublai não queria ser lembrado como o rei que baniu as letras e privou seus súditos do conhecimento, mas também não queria demonstrar insegurança, revogando o próprio decreto. Porém, sem sua aprovação expressa, nenhum censor ousaria a poupar qualquer manuscrito, ainda que se tratasse de um manual de jardinagem.

Em todo o reino, somente o neto de Alaor seria capaz de fazer o que o rei queria sem que ele parecesse tíbio aos olhos de seus súditos. Embora vivesse isolado, Tael atendeu à solicitação de Nublai e compareceu à corte para ouvir do próprio rei que caberia a ele decidir se o povo se reuniria para ouvir a leitura ou o crepitar das chamas do último manuscrito de Daren.

O disse me disse tomou conta da corte, diziam que Nublai testava a lealdade de Tael e temiam o perigo oculto no convite para que ele fosse censor do pergaminho encontrado no deserto, pois todos sabiam que suas convicções estavam mais fortes do que na juventude, quando contrabandeava manuscritos e censurava publicamente os conselheiros, desafiando o decreto real.

À noite, recolhido em seus aposentos, Tael repetiu os gestos de Nublai e tateou o pergaminho. Logo seus olhos foram capturados pelas palavras iniciais do manuscrito, e ele prosseguiu a leitura que o rei havia iniciado com os dedos:

“Há homens que vivem os momentos de bem-aventurança sem considerar os reveses da fortuna, como eu, que outrora frequentei bailes e banquetes nos salões da nobreza e hoje erro pelo deserto em companhia dos animais e me satisfaço com raízes e sementes.

Fiz parte do conselho dos ministros do rei, mais por força da tradição dos meus ancestrais que eram homens letrados e de grande erudição do que por meus próprios méritos, pois era jovem demais para orientar a quem quer que fosse. Quando meu conselho se fez necessário, fraquejei.

Porém, não foi pela inexperiência que não honrei meu lugar à mesa do conselho, nem por receio em desagradar a alguns nobres que me procuraram para que manifestasse desapreço pela presença de estrangeiros no reino, alertando para o perigo que eles representavam aos nossos costumes e valores e, principalmente, para a ingratidão deles com a terra que os acolheu. Foi, sobretudo, uma indiferença atávica por tudo que não fosse sofisticado e aristocrático que me levou a permanecer alheio à injustiça cometida diante dos meus olhos, ainda que não compartilhasse a mesma desconfiança de seus detratores e soubesse que suas preocupações passavam ao largo da sala do trono.

Não levantei a voz em ataque aos estrangeiros, como a maioria dos conselheiros que os qualificou como escória e os comparou a bárbaros, afirmando que seria melhor para todos que eles vivessem isolados já que não eram dignos de confiança, mas tampouco os defendi.

Só compreendi que era algo mais do que arrebatamento patriótico, dias depois, na principal corrida de cavalos do ano, quando alguns apostadores, no caso os perdedores, identificaram no cocho do cavalo vitorioso resquícios de uma mistura proibida de água, mel e aveia.  Como essa prática era comum para melhorar a forma física e o desempenho dos animais na terra natal do proprietário do vencedor do páreo, a conclusão de que se tratava de má-fé foi imediata. Embora a reputação do acusado jamais tivesse sido questionada, o puro-sangue vencedor fizesse parte de um plantel de uma linhagem campeã, e os acusadores estivessem à beira da falência devido a dívidas de jogo, a denúncia chegou ao tribunal do rei com a força de uma sentença, pois eram nobres acusando um estrangeiro.

Meu rei cedeu ao clamor dos queixosos e condenou o acusado ao empalamento, depois de confiscar e distribuir, como era costume, todos os seus bens aos supostos prejudicados por sua fraude. O réu não alegou inocência nem clamou misericórdia, em silêncio, agonizou até a morte mirando o firmamento.

Aos poucos e sem alarde, os estrangeiros foram em busca de terras menos hostis. O que a princípio parecia não ter consequências se revelou desastroso, sem eles nossas contradições se evidenciaram, e as diferenças se manifestaram com uma virulência nunca vista, tornando graves conflitos banais.

Logo, o meu rei foi deposto e exilado, alvo da intolerância que ele próprio nutriu. Consumido pela omissão, eu mesmo me sentenciei a vagar como um andarilho à procura de um lugar onde o clamor por justiça não seria dirigido aos céus, nem o desdém o grande ensinamento dos eruditos. Mas não encontrei, aonde quer que fosse, apenas constatei que os homens se degradam mutuamente em todos os lugares.

Muitos anos e lugares depois, encontrei refúgio para minhas quimeras na solidão do deserto até que um grande rei em guerra pela consolidação das fronteiras do seu reino foi vítima de envenenamento, no que parecia ser uma conspiração da nobreza, e mandou que seus soldados encontrassem alguém com conhecimento sobre ervas para cuidar dele, pois não tinha mais confiança em seus médicos. Os soldados trouxeram o primeiro homem que encontraram em condições para atender à ordem do rei, eu, um velho nômade do deserto.

Fui sábio o bastante para não contrariar os soldados e me deixei levar sob escolta até o acampamento. O grande rei parecia sentir dores intensas, pois seus gemidos eram ouvidos a distância. Mas logo percebi que o envenenamento não passava de excessos à mesa e que a teoria da conspiração fora orquestrada na cozinha. Exausto, depois de meses de batalhas, o rei estava suscetível a desvarios e prontamente acreditou em um complô para eliminá-lo.

Porém, ao saber qual era o mal de que padecia, ele infligiu a si mesmo ferimentos com uma espada, agravando seu estado de saúde, mas garantindo maior dramaticidade ao boato que ele próprio criaria e disseminaria de que fora vítima de uma emboscada; afinal, um empanturramento não estava à altura da sua dignidade.

Embora debilitado e febril, o rei queria saber como viviam os homens fora dos seus domínios e pediu que eu contasse a ele. Ciente de que jamais saberia se as palavras que ouvia foram ditas por mim ou resultado de seus delírios e que a perspectiva de ser lembrado, muito além do seu tempo, o fascinava, enfatizei que a história distinguia reis em cujos domínios o sol nunca se punha e aqueles cujos exércitos secavam os rios por onde passavam, mas eles eram tantos que chamava a atenção os poucos que elevavam a condição humana, rompendo os grilhões do povo.

Entusiasmado dissertei sobre reinos fundados com bases na justiça e no esclarecimento, onde os homens eram iguais perante a lei, escolhiam seus governantes e tinham direito a professar suas crenças e a expressar suas opiniões. Quem nos visse não saberia quem delirava.

Não sei o que o grande rei assimilou do que eu disse, mas assim que se recuperou, ele ofereceu um banquete aos nobres que supostamente o envenenaram. Vacilantes, eles pareciam mesmo traidores e se apresentaram esperando o pior, que veio, mas não como presumiam. O grande rei ordenou que cada um deles assinasse uma declaração em um pergaminho negando a participação no conluio para assassiná-lo. Cabisbaixos, os nobres se retiraram conscientes de que a pena capital teria sido melhor, pois ao assinar negando suas participações eles atestavam que houve uma conspiração contra o rei e que eles sabiam da existência dela. Em seguida, o rei ordenou que soldados levassem os pergaminhos assinados para lugares distantes e os escondessem em locais determinados por ele. Quando voltaram, todos foram executados, assegurando que somente o rei soubesse onde estavam os pergaminhos dos traidores.

O grande rei me presenteou com ouro e prata para abrandar as dificuldades do meu destino incerto e assegurar uma velhice sem privações, mas ainda assim voltei à serenidade dos ermos, onde não há quórum para a perfídia.

Ainda hoje sinto intensa inquietação por não ter alertado o grande rei a respeito das consequências do seu estratagema para controlar a nobreza, pois mesmo vivendo isolado, ouço rumores dos seus feitos e da prosperidade do seu reino e temo que, desonrados e ressentidos, cedo ou tarde, aqueles nobres cobrem vingança, já que ninguém aceita ser humilhado por escrito.”

Depois de ler o manuscrito repetidas vezes, Tael ficou vagando por seus aposentos tentando se convencer de que o pergaminho, que agora repousava em uma almofada à espera de uma sentença, não era de autoria do velho eremita que cuidara do rei Muntari tempos atrás.

Porém, além das semelhanças entre os acontecimentos narrados no manuscrito e a história de Daren, não havia dúvida de que o autor conhecia muito bem eventos obscuros do passado do reino, como os pergaminhos dos traidores, que a maioria dos súditos nem suspeitava da existência.

Ainda que fossem palavras de um desconhecido, elas causariam a mesma impressão em Tael, obrigando-o a aceitar que a decadência de Daren era inexorável.

Tael não teve dificuldade para supor que, desde que assinaram os pergaminhos, coagidos por Muntari, os nobres procuraram destruí-los. Às escondidas, as buscas foram em vão e só não foram deixadas de lado pelo temor que eles tinham de passar para a posteridade como traidores.

Diante das dificuldades de encontrar os pergaminhos, os nobres viram na morte precoce do rei de Daren uma oportunidade de mudarem de estratégia, pois tanto a viúva quanto o jovem herdeiro ignoravam o paradeiro dos manuscritos. A princípio, eles começaram atribuindo os acontecimentos narrados à maledicência dos desocupados e, depois, insidiosos fizeram com que todos cressem que os pergaminhos dos traidores não existiam.

No entanto, a ameaça persistia, pois os pergaminhos poderiam ser encontrados a qualquer momento. Então, graças ao toque de ironia de Alaor, que orquestrou minuciosamente a encenação na leitura da história de Daren na festa do jubileu da coroação para que o próprio Nublai, surdo a conselhos quando ébrio, autorizasse a proibição dos manuscritos, as buscas aos pergaminhos dos traidores ganharam novo fôlego até que todos foram destruídos. A mácula da traição foi apagada e, com ela, o conhecimento do reino.

Depois de anos de luta contra o decreto de Nublai, agora que o fim da proibição só dependia dele, Tael era assolado por dúvidas. Ele sabia que as revelações do nômade do deserto teriam consequências ainda mais devastadoras do que a proibição. Nublai não teria dúvida de que fora induzido a proibir os pergaminhos e não perdoaria os envolvidos em fazê-lo de marionete naquela noite fatídica, e os nobres, por sua vez, cientes da artimanha de Muntari para controlar seus ancestrais, jamais aceitariam ser imolados por um rei que já tinham feito de tolo. Caso Tael poupasse o último pergaminho das chamas, uma guerra intestina destruiria mesmo quem a vencesse.

No dia seguinte, não fossem pelas roupas e pelo séquito, ninguém o reconheceria, seus passos ontem firmes, hoje titubeavam, seu olhar, outrora decidido, agora vacilava sem se fixar em nada. Sombrio, Tael se arrastou até o palácio, experimentando profunda desolação.

Diante de toda a corte, Tael condenou o último manuscrito de Daren à fogueira, consciente de que o esquecimento é o único legado de um povo sem história.

                                                                                Por Vicente de Oliveira Luiz

A Viúva Negra

Posted by Vicente de Oliveira Luiz | Posted in | Posted on 15:49

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Capítulo I

Rosa pertence a uma linhagem de mulheres lindas, com nomes de flores e terríveis sinas com os homens. Ela não acreditava sequer que sua vida pudesse ser diferente, pois já experimentara grande amargura. Sobre o pai, ela pouco sabia e de nada se lembrava. Com o primeiro namorado, teve certeza de sua má sorte, depois que a engravidou, ele disse que era casado e foi embora.

Desde então, Rosa viveu discretamente, dedicando-se exclusivamente à filha. Acreditava que, isolada e reclusa, abrandaria sua estrela nefasta e impediria que outros desapontamentos a acometessem.

Ainda assim, Rosa tornou-se objeto de desejo dos homens, inveja das mulheres e comentário de todos. Sua presença era um tributo à beleza da flor que a nomeava, assim como foi com sua mãe, Hortênsia; sua avó, Violeta; e seria com sua filha, Magnólia.

O comportamento reservado a envolvia em mistério e a tornava fascinante para um séquito de admiradores. Uns a assediavam sutilmente, outros nem tanto, mas todos queriam sua companhia e favores. Eles enviavam presentes e flores ou a convidavam para sair. E se deparavam com uma negativa categórica, mas cortês de Rosa. Em vez de fazer com que desistissem, suas recusas inflamavam a benquerença deles, e as investidas cada vez mais intensas a obrigavam a ser ainda mais arredia. As poucas palavras trocadas com ela, a discrição com a qual ela recusava os presentes e convites, o sorriso acanhado ante as juras de amor, a elegância dos gestos. Tudo isso revigorava as paixões dos pretendentes.

Houve até quem arriscasse uns versos, elevando-a a condição de musa, porém a maioria, sem nenhuma intimidade com a lira, preferiu mesmo foi louvar seus atributos mais palpáveis em vez de sua inefável beleza.

Quando Eugênio de Melo Vaz, o Geninho, um galã de condomínio, com fama de conquistador em shopping center, soube da beleza de Rosa, duvidou. Para ele, os embeiçados por ela eram afeitos a barangas e afins, portanto, desqualificados para avaliar uma mulher bonita.

Geninho viu Rosa pela primeira vez, quando ela levava Magnólia para a escola. Nesta ocasião, ela se vestia de maneira simples, quase austera, num esforço consciente, mas em vão, para não ser notada. O corpo, confinado por um vestido ascético, pulsava sensualidade. Os cabelos ainda que estivessem presos pareciam querer se lançar ao vento. Os seios se projetavam desafiando o rigor do decote. O pouco que se via permitia a conclusão de que o que não se via era igualmente belo. Rosa exalava sedução.

Agora, como os demais, Geninho estava à mercê dos encantos de Rosa e para conquistá-la, ele teria que se desdobrar, e isso constituía uma novidade na vida dele.

De família tradicional, sem posses há gerações, Geninho sentia profunda nostalgia pela fortuna que não havia desfrutado e se perdia em devaneios com as delícias de uma vida nababesca.

Alguém disse que o último reduto de um canalha é a política, no caso do Geninho, um cafajeste notório, foi o primeiro. Quando garoto ele até quis ser jogador de futebol, sonhava com fama e riqueza, mas nem esta nem aquela seriam possíveis com o trato dele com a bola. Também em ser policial, a farda e o exercício da autoridade com impunidade o fascinavam, mas faltava a ele a têmpera para os rigores da vida na caserna.

Geninho viu no serviço público mais do que uma sinecura, ele contemplou a riqueza se avizinhar inexorável como uma sentença matemática. Ele queria recompensas sem percalços, com um cargo bem remunerado que exigisse pouco ou nenhum esforço. Não que isso fosse repreensível, no entanto, Geninho se lançava na política pronto a tratar o erário com o decoro de uma meretriz embriagada.

Cedo ou tarde, ele acreditava que teria êxito. Mas não foi bem assim, sem conseguir uma indicação para um cargo, Geninho tornou-se assessor de um vereador falastrão e prevaricador, o Sandoval Pires. Algo um tanto quanto reles para um homem com suas ambições, mas que se revelou não ser de todo ruim. Ele começou ciceroneando correligionários do interior e de outros estados na vida noturna e organizando jantares e festinhas para simpatizantes, empresários e lobistas. Depois, ganhou reputação nos bastidores do partido, limpando, com muita discrição, toda e qualquer sujeira que viesse a constranger quem estivesse com a probidade ameaçada, o que não era raro. Tudo parecia feito na medida para ele, do contrário, Geninho iria compartilhar suas aptidões em outra freguesia.

A despeito da ausência de caráter, Geninho causava boa impressão. Ele tinha boa aparência, era amigável como os bajuladores, loquaz como os mentirosos e envolvente como só os vaidosos costumam ser.

Ele enviou presentes, que Rosa recusou como havia feito com os demais, se ofereceu para acompanhá-la aonde quer que ela desejasse ir, mas ela não queria ir a lugar algum com ele ou outro qualquer. Então, Geninho mostrou uma malícia que os concorrentes não tinham, ele passou a se interessar por tudo que dizia respeito a ela, e isso se resumia a Magnólia. Os presentes e os convites passaram a ser para a menina que, ao contrário da mãe, não recusava nada.

Foram a parques e cinemas ou passeavam em shoppings. Uma das manias de Geninho, que incomodava muita gente, era estar sempre, com uma filmadora ou máquina fotográfica à mão, pronto para flagrar situações vexatórias de quem quer que fosse. Mas desta vez, sua intenção não era constranger, mas encantar. As fotos e vídeos de Magnólia foram o atalho para o coração de Rosa.

Geninho se fez presente de tal maneira na vida delas que nem mesmo os temores ancestrais de Rosa foram capazes de impedir que ela cedesse outra vez ao amor. E a leveza, que este sentimento traz, a tornou ainda mais bela.

Sem se dar conta de que não há trégua para uma estrela adversa, ela ousou ignorar sua desdita e sorriu para a vida. Porém, o destino aziago de Rosa hibernava reunindo forças para cobrar com rigor este momento de bem-aventurança.

Logo, eles estavam namorando, ficaram noivos e se casaram.

Na lua de mel, Rosa conheceu prazeres que sequer imaginava. Geninho era um amante experiente, certamente muito mais do que ela, cuja vida sexual se resumia, no máximo, a três ou quatro relações no banco de trás do carro do primeiro e único namorado.

Capítulo II

Embora fosse contra o casamento, a família de Geninho não se opôs. De fato, nem tentou. Todos consideravam um golpe do baú, e não um casamento com uma mãe solteira sem posses, como a sua única possibilidade de redenção social. Como era sabido que Geninho não tolerava ser contrariado, fez-se o silêncio cúmplice das calamidades.

Antes de conhecer Rosa, ele estava à beira da acomodação, com disposição apenas para ser mais um fracassado, amparado em toda a sorte de vícios e salvaguardado pelo menosprezo à sociedade que não reconhecia a singularidade de seus talentos. Agora renovado pelas núpcias, Geninho estava pronto para feitos à altura do seu gênio.

O casamento fez bem a ambos, Rosa vivia em êxtase. Sem o peso que a oprimia antes, ela mudou a maneira de se vestir e de se comportar. Trocou os vestidos austeros e de cores sóbrias por roupas modernas e coloridas e cedeu aos encantos do riso e da companhia. Não que ela tenha se tornado amiga de folguedos, apenas abandonou a atitude arredia e avessa a contatos que era sua garantia até então contra os revezes da vida.

A presença de Rosa e Geninho fascinava a todos. Até o vereador Sandoval Pires se deu conta do carisma do casal e não dispensava a presença deles a seu lado. Ele os apresentava com entusiasmo, rasgando elogios à beleza de Rosa, que era inegável, e ao caráter de Geninho, que era questionável.

Um sábado de madrugada, Geninho se deu conta que talvez as declarações do Pires tivessem surtido efeito. Ele recebeu uma ligação de uma mulher que falava em nome de Paulo César Frota, um jovem deputado, com futuro promissor e reputação até então ilibada. O deputado estava em uma festinha, e seu acompanhante, devido aos excessos da noitada, passou mal e precisava de ajuda.

Geninho fez algumas perguntas, anotou o endereço, pegou uma mochila com seu equipamento e saiu sem acordar Rosa, para mais uma vez escamotear deslizes que pudessem macular carreiras sólidas ou mesmo ascendentes de notáveis do partido.

Ele chegou ao hotel acompanhado de uma médica, uma antiga amante à espera do fim do casamento dele ou apenas de uma crise que permitisse a ela reviver alguns momentos de prazer com Geninho.

Eles foram recebidos por uma mulher, a mesma que fizera a ligação. Geninho viu que não se tratava de uma garota de programa; mas da noiva do deputado e filha do presidente do partido, o ex-senador Juvenal Linhares.

Ela estava tranquila e bem-vestida, mas o Frota estava dando chilique só de cueca. Ele andava de um lado para o outro, agitando os braços e falando exasperado sobre essa gente sem controle dos apetites e se lamentando sobre o que seria da vida dele sem o garotão.

Enquanto a médica examinava o rapaz, a noiva do Frota sentou-se para assistir televisão, indiferente ao que se passava ao redor. Depois de tratar o paciente, a médica sussurrou algo para Geninho e se retirou altiva e solene, como quem porta um segredo.

Geninho disse ao Frota que o garotão logo estaria bem, bastava que repousasse um pouco. Aproveitou e sugeriu que ele tomasse um calmante e descansasse também. Depois de tomar o sedativo, o deputado foi até a cama e ficou olhando o amante dormir, como uma adolescente velando o pôster de um galã na parede do quarto, até adormecer também.

Sem prestar atenção à televisão, os olhos de Geninho iam discretamente da mesa com bebidas, estimulantes e papelotes de cocaína até o corpo da noiva do deputado. Ela era magra, alta e elegante.

Lânguida e sensual, ela se levantou, foi até a cama e colocou uma manta sobre o noivo e o rapaz. Depois, serviu-se de uísque, cheirou uma carreira de cocaína e fez um gesto para que Geninho fizesse o mesmo. Estoicamente, ele declinou.

Geninho sentou-se em uma poltrona de forma que pudesse observar a cama onde o deputado e o rapaz dormiam, sem perder os movimentos dela. E só então aceitou o uísque que o envolveu em uma atmosfera de requinte e o lembrou que ele ainda era um pé-rapado.

Ali, dando os primeiros passos em um mundo em que ansiava pertencer, Geninho percebeu que havia amadurecido. Antes ele simplesmente partiria para cima da mulher, das drogas e da bebida, com o comedimento de um vira-lata esfomeado, mas sob o efeito inebriante de um uísque que ele jamais degustara, se deu conta que aquela mulher não era qualquer uma. De família abastada e poderosa, ela era ainda mais importante que o noivo.

Ele precisava saber como agir com aquela mulher, que parecia indiferente, mas estava atenta a tudo. Sentia os olhos dela, sutis e perspicazes, sobre ele.

Geninho não queria apenas transar com ela, desejava seduzi-la e, para isso, era necessário submetê-la. Ele esperou que seus olhos se encontrassem e se aproximou determinado. Ela não ofereceu resistência, quando ele a tocou na face, afagou os cabelos e percorreu avidamente os lábios dela com o polegar. Depois, ele a beijou no pescoço, deleitando-se com a maciez da pele e o perfume dos cabelos, passou as mãos pelo corpo e a despiu. Deixando-a apenas com brincos, colares e anéis para ataviar a nudez. Todo o desdém que ela eventualmente sentisse cedeu ante as carícias de Geninho. Ela se entregou com uma sofreguidão surpreendente, mas Geninho era um amante traquejado e licencioso e se valeu disso como nunca antes. Logo, os dois estavam transando, intensa e repetidas vezes, como um casal apaixonado, que se reencontrou depois de muito tempo. Depois se aninharam nos braços um do outro totalmente entregues e ficaram assim, retribuindo carinhos, sem prestar atenção a mais nada.

Um pouco antes de amanhecer, ela adormeceu. Geninho a tomou nos braços e a levou até a cama onde o deputado e o rapaz dormiam. Então, ele vasculhou os cestos de lixo e a geladeira, pegou tudo que pudesse causar constrangimento, comprometer ou incriminar, colocou na mochila e saiu com a certeza de dever cumprido e, é claro, de mais uma conquista, só que essa seria fundamental para o andamento de seus anseios arrivistas.

Na semana seguinte, os pensamentos de Geninho sondavam o porvir, ele ficou aluado até receber um convite para jantar com o deputado. Ao chegar ao restaurante, Geninho viu que o deputado estava acompanhado pela noiva; ele ficou embaraçado, ela não. O Frota agradeceu entusiasticamente e prometeu que ele seria muito bem recompensado. Geninho até tentou dizer que não precisava, que aquilo fazia parte do trabalho dele e que era tudo para o bem do partido, mas não disse, sabia que não convenceria.

Logo, os três eram vistos juntos em toda parte, Geninho substituiu o garotão no coração e na cama do deputado, com a credibilidade de um homem casado, a convicção de um homem a serviço de um bem maior e a lascívia de um proxeneta.

Às vezes, Rosa se juntava a eles em jantares e festas e ficava deslumbrada com a sofisticação do casal e com a atenção que eles devotavam ao marido. O deputado, mais de uma vez, fez comentários auspiciosos sobre o futuro do Geninho. Rosa anuía embevecida.

A presença constante dele ao lado dos noivos gerou comentários, mas a imagem arrebatadora de Rosa pairava acima de tudo impedindo que grassasse a maledicência.

Outro no seu lugar seria mais discreto, mas era a opinião de poucos e não da maioria que interessava para Geninho. Logo, ele mostraria isso de maneira contundente.

Um preposto de uma grande empreiteira de construção, Hilário Braga, se interessou por Rosa e insinuou que dificultaria as contribuições para a próxima campanha eleitoral do partido, caso não passasse alguns momentos com ela. Mas por apenas uma noite, ele não só facilitaria como dobraria as doações. Ousou até comentar que não se importava em se valer de qualquer expediente, inclusive o uso de drogas, para ter Rosa.

Quando soube, Geninho pasmou até o mais abjeto de seus pares, riu da sugestão do lobista e disse que não precisaria lançar mão de quaisquer artifícios que entorpecessem os sentidos de Rosa para que o Braga lograsse seus desejos.

Em um de seus encontros com a noiva do deputado, Geninho a instruiu que contasse a Rosa sobre o interesse do lobista nela e de sua ameaça em suspender as doações para a campanha e, sobretudo, que enfatizasse que isso arruinaria as esperanças dele no partido.

Depois disso, ele se fez distante e preocupado. Quando Rosa ficou sabendo do interesse do Braga por ela e das implicações desse afeto, entendeu o alheamento do marido e aceitou passar a noite com o lobista sem hesitar, como se fosse apenas mais uma obrigação trivial de dona de casa.
O partido conseguiu o apoio financeiro do lobista, mas Geninho ainda teria que provar que seu caráter estava à altura da moralidade torpe de seus pares.

Capítulo III

Quando Magnólia completou quinze anos, Geninho fez da festa de debutante dela um acontecimento à altura do status recém-adquirido. Com pompa, Magnólia foi apresentada à sociedade que Geninho até então apenas tangenciara. Compareceram pessoas importantes do recente círculo social dele, mas a presença de Juvenal Linhares, o presidente do partido, apesar dos sinais evidentes de decrepitude física, o deixou lisonjeado.

Magnólia ficou felicíssima, quando dançou a valsa com um galã de TV sem talento, salvo o de encantar adolescentes. Geninho distribuiu abraços e sorrisos aos anônimos e notáveis presentes, claro que com estes o entusiasmo era maior do que com aqueles.

Algum tempo depois, em uma das festinhas com o deputado e a noiva, Geninho soube que o Linhares tinha ficado fascinado por Magnólia e, embora debilitado e sem vigor, queria estar com ela com privacidade.

O Frota também acenou com uma indicação para um cargo importante graças a esse agrado e garantiu que nada de ruim aconteceria a Magnólia, já que as condições físicas do sogro deixavam a desejar.

Depois de momentos de silêncio, quando o Frota já esperava um sonoro não, uma espinafrada homérica ou mesmo um soco na cara, Geninho surpreendeu com sua ambição sem limite e parca dignidade, dizendo que não desejava um cargo qualquer, ele queria ser o tesoureiro da campanha nas próximas eleições, antes de entregar Magnólia ao Linhares.

Para gerar situações que permitissem a realização dos caprichos do Linhares, Geninho revelou mais uma vez que era talhado para aleivosias, mancomunado com o deputado, eles forjaram uma plataforma da campanha eleitoral, sugerindo ações em defesa do meio ambiente para atrair a juventude.

Depois, organizou eventos nos quais precisava viajar com frequência e insistia muito para que Rosa e Magnólia o acompanhassem. Elas viajavam com ele quase sempre, até que uma vez Rosa sentiu-se indisposta e deixou de ir, mas permitiu que Magnólia fosse.

Desta vez, era uma manifestação pela limpeza das praias. Com cobertura da imprensa, vários adolescentes, com camisetas com dizeres em prol da preservação da vida marinha, recolhiam entusiasmados lixo de uma praia.

À noite, depois do jantar, aconteceu uma festinha de comemoração. Geninho alertou os jovens para que não consumissem bebidas alcoólicas, mas deixou bebida ao alcance deles, sabendo que não se furtariam em se embriagar, inclusive Magnólia.

Enquanto Magnólia dançava com as amigas, Juvenal Linhares, à espreita, antecipava momentos de prazer com ela.

Ao perceber que um garçom levava margueritas para Magnólia e amigas, Geninho o interceptou, pegou a bandeja e batizou as bebidas. Ao notar que elas já estavam embriagadas, Geninho encerrou a festinha, deu uma pequena bronca em todos, num tom bem-humorado, por terem bebido e pediu que fossem dormir.

Ele mesmo conduziu Magnólia e as amigas aos quartos. Elas estavam tão entorpecidas que ele não teve dificuldade em deixar Magnólia no quarto do Linhares. Ele dopou as amigas para justificar o torpor de Magnólia no dia seguinte, mas agora não via razão para não tirar proveito disso, enquanto aguardava que o Linhares consumasse seus desejos com Magnólia, Geninho passou a noite com uma das garotas.

No dia seguinte, alheias e desanimadas, elas não se lembravam de quase nada da noite anterior. Geninho atribuiu o mal-estar delas à bebida.

Enfim, sua ambição incontida, aliada à índole duvidosa, encontrava sua seara. Ele estava se entrosando com as altas esferas e pronto para participar como convidado do banquete de abominações sem fim com os corruptos e sibaritas.

A indisposição de Rosa era decorrente de uma gravidez e foi marcada por sobressaltos e pesadelos, mesmo assim ela não se descuidou de Magnólia, a pretexto de ir ao ginecologista, fez com que a filha também fosse examinada, mas não havia nada de errado fisicamente com a menina constatou o médico.

Mas isso não a tranquilizou, ela não se perdoaria caso algo acontecesse com a filha. Seus temores voltaram avassaladores e ainda mais tétricos do que antes e só atenuaram quando o choro de Açucena ocupou a casa, mas o coração de Rosa permaneceu inquieto e sombrio.

Meses depois, em uma noite de chuva, Geninho foi vítima de uma tentativa de assassinato, quando voltava para casa. Alguém o alvejou com seis tiros quando ele acionava o controle remoto para abrir o portão da garagem. Geninho só foi encontrado na manhã seguinte, agonizando.
Ninguém escutou nada devido aos trovões, mas os vizinhos afirmaram ter visto um homem estranho rondando a casa naquele mesmo dia.

A polícia conseguiu um retrato falado do suspeito, um homem de meia-idade, estatura mediana, atarracado, cabelos grisalhos, barba por fazer, óculos ray-ban, boné preto, camisa xadrez, casaco militar, calça jeans e coturnos.

Ao lado do portão, atrás da cerca viva de hibiscos, onde o assassino ficou de tocaia, havia pegadas que permitiram que a polícia fizesse uma estimativa de peso do suspeito, o ângulo dos tiros e a identificação do número dos coturnos que ele usava.

Dias depois, luvas e uma arma com a numeração raspada e silenciador foram encontradas a dois quarteirões da casa do Geninho. Exames de balística comprovaram que era a arma do crime.

Muitos sabiam que Geninho não valia grande coisa, mas ser executado daquela maneira causou comoção, ainda mais depois que se soube que ele nunca mais andaria e falaria novamente. E só sobreviveria à custa de aparelhos.

Acreditava-se que Geninho não tinha inimigos até que a polícia apreendeu na casa dele vídeos comprometedores que vazaram para a imprensa e foram divulgados à exaustão como de costume. Em poucas horas, os envolvidos saíram das colunas sociais para as páginas policiais. Logo, só se falava do cinismo nauseante do Braga, o lobista, e do Pires, o vereador, contando vantagens numa roda de pôquer sobre fraudes em licitações e esquemas de lavagem de dinheiro, sem poupar detalhes escabrosos e nomes dos envolvidos, também foi assunto o chilique do deputado na noite em que Geninho o conheceu e, sobretudo, o Linhares bolinando uma menor, nua e drogada.

Geninho foi visto como um herói, acreditava-se que ele estava reunindo provas para denunciar a sordidez e corrupção de seus pares na vida pública.

As investigações revelaram as falcatruas e os golpes de sempre, mas só arranharam a credibilidade dos envolvidos. O Braga e o Pires estavam sob investigação. O deputado Paulo César Frota recorreu a um expediente antigo dos bem-nascidos em desgraça e foi para o exterior com a noiva em busca de esquecimento. O Linhares se esquivava do processo por pedofilia, entrando e saindo de hospitais graças à proximidade da indesejada das gentes.

A despeito da grande repercussão e indignação que os vídeos provocaram, logo o caso foi esquecido, exceto por um ou outro taxista.

Meses depois do nascimento de Açucena, Rosa executou um ritual que seria repetido nos próximos anos. Pela manhã, ela dispensou a enfermeira e a empregada e levou Magnólia até a casa de sua mãe, Hortênsia. O dia transcorreu sem novidades para ela que estava habituada a se desdobrar em cuidados com Açucena e Geninho.

À noite, Rosa levou até o quarto uma mala, de onde retirou uma série de coisas que pôs meticulosamente em uma poltrona. Em seguida, colocou um vídeo para que Geninho assistisse. Normalmente era um filme de ação, mas desta vez era uma reportagem de TV sobre seu incidente, com declarações do delegado a respeito do andamento das investigações e apresentação do retrato falado do suspeito. Depois, imagens com o Braga e o Pires saindo de uma delegacia sem dar declarações. O Frota embarcando para o exterior com a noiva. Uma retrospectiva da carreira do Linhares com personalidades de destaque da política. E, finalmente, imagens dele, Geninho, sendo executado com seis tiros.

Enquanto isso, fora do alcance visual dele, Rosa se despiu e fez uso do que havia retirado da mala. Ela colocou enchimentos de espuma nas pernas, braços e tronco, cingiu pesos de chumbo nos pés e na cintura, vestiu uma calça jeans de homem, uma camisa xadrez, um casaco preto e calçou um coturno militar com o número bem maior do que o dela. Depois, se maquiou, transformando sua pele jovem em enrugada e macilenta. Aplicou um queixo falso com uma barba rala e arrematou com uma peruca grisalha, um boné preto e óculos ray-ban. Açucena, em pé no berço, ria com a transformação de sua mãe.

Então, Rosa surgiu diante dele, Geninho quis correr e gritar, mas estava à mercê de seu algoz. Ela saboreou seu temor, com a tranquilidade de quem degusta o prato que deve ser servido frio, ficou em pé diante dele até que a reconhecesse e compreendesse que ninguém tocaria na filha dela impunemente. Depois, fez um gesto com a mão como se fosse um revólver, apontou o indicador para a cabeça de Geninho e flexionou o polegar seis vezes, imitando com a boca o som surdo de tiros, sob o olhar divertido e os risos de Açucena.

Novela do cotidiano

Posted by Vicente de Oliveira Luiz | Posted in | Posted on 14:42

2

Uma moça muito bonita entrou em um ônibus lotado. Um tipinho à toa, sem préstimo nem discernimento, com ares de sedutor se aproximou lúbrico e começou a se esfregar nela. Irritada, ela tentou se afastar dele o máximo que pôde, mas as circunstâncias não eram favoráveis, e ela conseguiu ficar apenas a dois passos dele.
Logo ele estava de novo se roçando nela, com o cinismo de um corrupto tecendo loas à honestidade.
Prestes a ter um acesso de ira, ela teve um lampejo de mordacidade e disse:
- Goza logo que vou descer no próximo ponto.
Mas quem desceu foi ele sob vaias e risadas dos outros passageiros que acompanhavam atentos a tudo, como se fosse o capítulo final de novela.

A princesa finalmente acordou!

Posted by Vicente de Oliveira Luiz | Posted in | Posted on 14:42

4

Uma princesa não via em seus pretendentes as qualidades que ela sonhava. Com o tempo, se esqueceu das qualidades, só queria pretendentes.

Uma abecada inesquecível

Posted by Vicente de Oliveira Luiz | Posted in | Posted on 14:40

0

Um homem foi seguro pelo colarinho e esbofeteado por um desafeto. Perdoou o agressor, mas não o colarinho.

Enquanto a 2ª parte do conto a Viúva negra não vem...

Posted by Vicente de Oliveira Luiz | Posted in | Posted on 09:51

1

- Filhinha, passe os pão para o papai.

- Não passo mesmo. A mamãe disse que o artigo tem que concordar com o substantivo.

-Tudo bem, filhinha, é um jeito coloquial de falar. Afinal, estamos só nós dois aqui curtindo o nosso café da manhã.

-A mamãe falou que isso era desculpa de quem não sabia falar português.

Precisava ter avisado que a mãe dela é professora; e o pai, publicitário?

Mazé

Posted by Vicente de Oliveira Luiz | Posted in | Posted on 09:13

5


Por Vicente de Oliveira Luiz


Maria José, ou melhor, Mazé como era conhecida, é aquele tipo de pessoa absolutamente confiável que, no entanto, nunca chegou a conquistar a confiança de ninguém. Discreta e avessa a cochichos e fofocas, suas preocupações consistiam em trabalhar, economizar o que pudesse e enviar para a família. Parecia que tudo mais não lhe dizia respeito, não fosse uma paixão arrebatadora por telenovelas.

Há anos trabalhava como empregada doméstica em casas de família, sem conseguir permanecer no mesmo emprego por muito tempo e sem o menor interesse em saber o motivo das demissões. Mazé só ficava preocupada, entre uma casa e outra, com o dinheiro para enviar à mãe; e, entre um capítulo e outro, com a trama e as desventuras dos personagens da novela.

Numa ocasião, ela trabalhou em uma casa e assistiu ao início de mais uma novela. À primeira vista, a família parecia igual às outras; e a novela, especial, mas mesmo que não fossem, Mazé não se daria conta, porque em relação às famílias com as quais trabalhava, comuns ou não, toda a sua atenção era dedicada a cumprir suas obrigações; e quanto às novelas a que assistia, boas ou não, todas tinham a seus olhos a tessitura dos sonhos e preenchiam plenamente suas fantasias.

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Desta vez, era uma família formada por um casal, com uma filha de aproximadamente 21 anos e um garoto de 4 anos. O contato de Mazé era um pouco maior com a patroa; com o marido, a filha e o menino, se resumia a encontros eventuais, quando ela chegava ou saía do trabalho.

A patroa acordava lá pelas dez horas e tomava seu café em silêncio. No almoço, ela era monossilábica e, no fim da tarde, depois de tomar seu primeiro drink, era pura loquacidade. Então só restava a Mazé ouvir o que quer que fosse que a patroa dissesse, fingindo um interesse que de modo algum ela sentia.

E foi em momentos como esses que Mazé conheceu alguns dos segredos da família. Soube que a jovem era filha do primeiro casamento da patroa e, dias e drinks depois, que o menino era neto dela, fruto de uma aventura da filha na adolescência. Porém, ela e o marido o assumiram publicamente como filho. A semelhança entre eles ajudou muito, eram os mesmos cabelos e olhos negros, ao contrário da mãe e da avó, que eram loiras e tinham olhos verdes. Assim pouparam a filha dos inconvenientes de ser conhecida como mãe solteira e, também, ao garoto de ser filho de uma.

Embora a patroa reclamasse do marido, lamentando ter se casado com um homem mais jovem, também admitia que ele era muito afetuoso com a filha dela e tratava o menino como se fosse realmente filho dele. Mas ela tinha certeza de que ele a traía e que, depois de conseguir o que queria profissionalmente graças aos contatos dela, seria capaz de abandoná-la por uma ninfeta qualquer.

Ela também dizia que o marido não a desejava mais e quando ela o procurava, ele a tratava sem o menor entusiasmo, como se estivesse cumprindo uma obrigação, e tomava banho em seguida o que a magoava tanto quanto a indiferença.

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Mazé ia tocando sua vida, acompanhando cada capítulo da novela como se fosse o último, trabalhando e enviando dinheiro para a família, sem se dar ao trabalho em pensar na vida dos patrões e nas condições singulares impostas ao seu trabalho.

A patroa quis que ela dormisse no trabalho, mas a filha foi contra e recomendou, expressa e sigilosamente, que ela nunca chegasse antes das 9 horas da manhã e, jamais, saísse depois das 18 horas. Maria José, por índole e disposição, nem mesmo considerou o que havia de inusitado nas recomendações da filha da patroa e as seguiu à risca.

Acostumada a acordar de madrugada, Mazé até que gostou do novo horário, principalmente, porque passou a economizar metade do dinheiro da condução, caminhando para o trabalho, e ainda podia sondar as bancas de jornal à procura de notícias sobre as telenovelas.

Quando chegava, apenas a patroa estava em casa e, quase sempre, dormindo. Mazé dava início aos seus afazeres com os sentidos atentos a tudo que fosse pertinente ao bom andamento do seu serviço e a nada mais. Nem a desordem que ela encontrava na cozinha e na casa a levava a pensar, sequer por um momento, nas razões de alguém, com tão pouca prática e nenhuma disposição para os serviços domésticos, mandar a empregada chegar mais tarde e sair mais cedo do trabalho.

Nada que não dissesse respeito às telenovelas a interessava ou despertava a sua curiosidade, mesmo quando encontrava copos de bebida, cinzeiro com pontas de cigarros de marcas diferentes, preservativos no banheiro, meias de homem, cuecas e lençóis sujos de esperma na cama da filha da patroa, Mazé pensava a respeito ou cogitava em saber quem e como ela recebia homens em casa e por que a patroa, sempre disposta a confidências depois do primeiro drink no fim da tarde, jamais ter comentado nada a respeito.

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Até mesmo os comentários de Mazé não eram motivados por qualquer outro assunto que não tratasse de personagens e atores de novela, nem mesmo quando voltava para casa com as amigas, empregadas como ela, que não perdiam a chance de praticar a maledicência, falando sobre a vida dos patrões e espinafrando seus comportamentos.

Uma manhã quando caminhava tranqüilamente pela vizinhança para evitar chegar ao trabalho antes do horário determinado, Mazé passou ao lado de um carro, parado no semáforo, com a filha e o marido da patroa, trocando carícias com a lascívia dos amantes, enquanto aguardavam o semáforo abrir.

Mazé não os viu, mas mesmo que isso tivesse acontecido, ela estava tão concentrada em seus devaneios sobre desfecho da novela que não se daria conta que havia muito mais do que simples afeição entre eles. Mas eles a viram e ficaram sobressaltados com a possibilidade de estar à mercê de uma testemunha.

Atenta às suas obrigações e sem cuidar do que não lhe dizia respeito, Mazé ia levando a vida. Mas como a vida não é o que deveria ser, mais uma vez, Mazé foi despedida, e mais uma vez não se deu ao trabalho em questionar sobre a desconfiança daqueles que têm segredos. E tratou de arrumar um novo emprego, sem perder o capítulo final da novela.